sexta-feira, novembro 28, 2008

GONZALEZ BRAVO: PINTAR O INDIZÍVEL*
Por Branquinho Pequeno

A propôsito da exposição, deste importante artista espanhol, que decorre até dia 10 de Dezembro na Galeria São Mamede, gostaria de, antes de iniciar com o texto do Mestre António Branquinho Pequeno, deixar, aqui, algumas breves considerações sobre a obra de um pintor que admiro e com o qual tive o privilégio de falar uma ou outra vez sobre o seu trabalho na tão mítica (mas extinta) galeria de arte “O Anexo”, na doca de Alcântara.
Falar da pintura de Gonzalez Bravo é falar do óbvio matérico, do tacto visível. Toda essa carga, alheia a meras e supérfluas representações do real, conduz-nos a uma pintura que, inevitavelmente, respira da matéria. É ela, naturalmente, que brota do suporte e representa o não representável. Numa nítida relação de sobreposição de camadas sobre a tela, denota-se, ainda, gestos que rasgam, que induzem, mas que prevalecem. São essas texturas e espessuras, quase infinitas, que evidenciam a procura de certezas incertas, resultando numa pintura que se assume segundo um processo de criação, fugindo a uma metodologia específica ou a regras pré-definidas.




"Ser artista é falhar como ninguém mais se atreve a falhar.Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor." Samuel Beckett
“A MINHA TAREFA AQUI, COM GONZALEZ BRAVO, É TANTO MAIS ALEATÓRIA QUANTO, NA SUA OBRA, ELE ESTÁ MENOS EMPENHADO EM MOSTRAR O QUE SABE, O QUE SERIA FÁCIL, DO QUE EM PERSEGUIR O QUE PORVENTURA IGNORA. A CRIATIVIDADE É UM POUCO ISSO. ALHEIO A CERTEZAS, ELE NÃO PROPÕE METAS, HÁ SEMPRE QUALQUER COISA DE INACABADO A CONVIDAR A SEGUIR VIAGEM”.
“É sempre uma traição escrever sobre a obra de um artista, neste caso um pintor, de tal modo diferem as duas ferramentas, a linguística de quem escreve e a outra, a pictórica. Coisa que não parece incomodar de modo geral os críticos. Talvez seja por isso que, não raramente, tantos se limitem a banalidades de estilo. Embora conhecendo os riscos na passagem de uma linguagem para a outra, também eu me vou aventurar, convicto no entanto que neste jogo só se poderão ganhar umas terminações. Nunca um primeiro prémio. Não há aqui primeiros prémios. A Semiologia, também ela, corre alguns riscos nesta matéria: à força de delimitar, esquartejar, distribuir e redistribuir, pode acabar por entrar em circuitos virtuais e perder de vista a semântica do trabalho do artista. A minha tarefa aqui, com Gonzalez Bravo, é tanto mais aleatória quanto, na sua obra, ele está menos empenhado em mostrar o que sabe, o que seria fácil, do que em perseguir o que porventura ignora. A criatividade é um pouco isso. Alheio a certezas, ele não propõe metas, há sempre qualquer coisa de inacabado a convidar a seguir viagem. Uma viagem que, embora tumultuosa, não é vacilante mas determinada. Efectivamente, equacionar uma problemática, delimitar um território, retratar um tema, dar a ver a realidade para com ela nos identificarmos, eis aquilo de que este artista não se ocupa nem está no seu horizonte. E ainda bem que assim é. Dizia Dubuffet, em substância, que a Arte logo foge se lhe querem fazer a cama para ela se deitar. Por outras palavras, o que Gonzalez Bravo nos quer transmitir é o indizível, por paradoxal que pareça. Mas se assim é, como poderei eu então - dupla dificuldade - traduzir em palavras aquilo que já é indizível na sua pintura?. Só tacteando, a avançar e a recuar, a passo miúdo. Falar da beleza que as suas telas nos transmitem é mais uma banalidade. Como descodificar essa beleza? Talvez que ela nos chegue através das superfícies rugosas e rasgadas da tela, pela violência contida dos planos que os abruptos contrastes cromáticos reforçam, dos azuis aos vermelhos e aos ocres, talvez pelo carácter rupestre, anterior à História, desta pintura. Neste universo, vislumbra-se sempre porém uma saída. Mesmo nas peças mais enquadradas ou emolduradas, contidas pela barra ou pela grade, não há guetos nem prisão. Daí que sejam dificilmente aceitáveis as etiquetas que se atribuem a este trabalho, como seja o informalismo matérico ou outras filiações que não lhe assentam bem, porque com percurso próprio. O seu matérico entra com dificuldade no academismo das nomenclaturas e das escolas. É ele um discípulo de Antoni Tapiès, como se tem dito? Mas como assim, quando tanta coisa os separa? Claro, somos ou fomos discípulos ou tributários de todos e de tudo, tal como o mestre catalão foi herdeiro de Picabia ou de Marcel Duchamp, de Picasso ou de Miró. Tal como o cubismo de Picasso foi, ele também, tributário das máscaras de Arte negra que o maravilharam no museu do Trocadéro, em Paris, ou das esculturas ibéricas do Louvre, ou tributário ainda dos rostos cavados dos camponeses de Gosol, por sobre o vale de Andorra, com quem conviveu algum tempo. Nada evidente a filiação de Gonzalez Bravo em Tapiès. Onde está no primeiro a insularidade ou a construção em arquipélago? Onde está nele o silêncio sufocante do vazio, um conceito chave na armadura ideológica do pintor catalão, que ele próprio teorizou e está bem visível na série da “Celebració de la mel”? E onde estão na sua obra a aridez pictórica e os espaços da ausência? Estamos, em contrapartida, em presença de uma pintura cheia, compacta, que não aceita a erosão das formas e por isso mesmo estrangeira ao. Informalismo. Este artista não é o Samuel Beckett da pintura que, com Godot, levou a erosão da palavra até ao limite do absurdo. Apesar das barras verticais ou horizontais em trabalhos mais recentes, a sua pintura continua descritiva, metonímica, contrariamente ao sincretismo metafórico de Tapiès, um filósofo, secreto, algo demiurgo. É certo que o artista de Badajoz deixa, aqui e lá, algumas marcas sobre a tela, alguns vestígios de signos “linguísticos” desprovidos de significado, onde é somente visível a parte significante, para utilizar a terminologia dos linguistas. Mas essas marcas não se destacam da matéria pictórica, antes a ilustram e nela se diluem. E sobretudo, não há nele negação da representação. Esta pintura cheia mergulharia mais no universo vegetal das árvores legendárias, milhões e milhões de anos anteriores ao homem ter surgido. Uma pintura cúmplice do barro, da pedra megalítica e dos metais, contrariamente ao universo aéreo e galáctico de Tapiès, apesar da sua aparência mural. Gonzalez Bravo, porventura marcado pela sua Estremadura hispânica, recusa abandonar o caos telúrico, certamente por sabê-lo fecundo, por saber talvez que só a partir desse caos alguma luz pode irromper”.
António Branquinho Pequeno
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias Lisboa, Nov. 2008
*Gonzalez Bravo, Galeria São Mamede Out./ Nov. 2008
Exposição de Pintura – Gonzalez Bravo
16 de Outubro a 10 de Dezembro
Galeria São Mamede, Lisboa