segunda-feira, novembro 01, 2010

///UMA NOVA TOPOGRAFIA DE CIDADE
POR: MÁRCIO DE CAMPOS, REVISTA ARCHINEWS 17, PÁG. 4 E 5

É entre o rio e a cidade que se irá erguer, em 2013, o Terminal de Cruzeiros de Lisboa. A proposta apresentada pelo arquitecto João Luís Carrilho da Graça para este apetecível concurso internacional promovido pela Administração do Porto de Lisboa (APL), foi, segundo uma posição unânime do júri, a grande vencedora, evocando-se “num claro benefício” para a cidade de Lisboa e para o seu porto.

O mérito deste projecto evidenciou-se, sobretudo, pelas suas polivalências programáticas, pela inserção de uma escala volumétrica controlada e pela intenção de o próprio edifício constituir uma nova topografia, da cidade e para a cidade, que nasce entre a colina de Alfama e o Tejo. Foram estes os pressupostos que fizeram com que a formalização da proposta não só responda ao programa como também resolva questões ligadas ao uso público, permitindo que a cidade se prolongue até ao rio, potenciando o uso e o desfrutar de novas condições espaciais públicas, onde os espaços verdes e outras áreas destinadas a diferentes actividades façam parte do quotidiano da relação rio/cidade e cidade/rio. É neste ponto de balanço que o objecto se assume, também, como um miradouro, sendo o edifício percorrível até à cobertura, descobrindo-se, aí, um novo sentido da nossa Lisboa antiga e de um renovado porto seguro, porque é entre o espaço e o tempo que a memória persiste.
Outras quatro propostas mereceram uma menção do júri. Em segundo lugar, a proposta do arquitecto Manuel Aires Mateus “...privilegia a espacialidade em detrimento da forma. No projecto, a forma arquitectónica é uma espécie de reminiscência temporal da memória cultural da cidade...” Ainda segundo o autor, “mais do que uma mimetização do sistema formal das margens portuárias do início do século passado, interessa a radical interpretação contemporânea que parte do carácter sistémico dessa presença ou do que dela resta com a erosão do tempo...”

Classificado na terceira posição, o arquitecto espanhol Guilhermo Vazquez Consuegra, autor do projecto de reordenamento da frente marítima de Vigo, apresentou um projecto cujas coberturas apresentam um jogo complexo através de planos quebrados que se prolongam e se recuam, simbolizando a paisagem fragmentada da cidade. Segundo o autor “a proposta de um edifício em forma de “L” oferece uma fachada urbana à nova praça da Alfândega, construindo o seu limite Sudoeste através de uma generosa consola, de forma que a Alfândega e o Terminal de Cruzeiros são os dois grandes edifícios que configuram a nova praça, que ao mesmo tempo oferece uma fachada marítima com forte presença arquitectónica em sintonia com os edifícios industriais que pontuam o rio Tejo”.

Em quarto lugar, o ateliê ARX Portugal, da dupla Nuno Mateus e José Mateus, apresenta um edifício que, segundo os autores, “surge como uma peça monolítica que pousa no terreno e rompe com a aridez que esta zona agora apresenta. Numa segunda etapa, a peça é partida em quatro volumes, respeitando os enfiamentos visuais do lugar...” Numa terceira etapa, “os quatro volumes posicionam-se reforçando os enfiamentos visuais existentes, num sentido transversal, e também a morfologia de alinhamentos que a frente de rua da Av. Infante D. Henrique tem e deve manter, num sentido longitudinal. Por fim, os diferentes volumes são cobertos por um elemento que lhes confere unidade formal...


Em quinto lugar, a arquitecta Iraquiana Zaha Hadid apresentou uma proposta em que “o edifício estabelece uma relação directa com a topografia da cidade e com os navios de cruzeiros, elegendo a cobertura – fachada mais visível – como o elemento significante do projecto. A morfologia triangulada da cobertura participa activamente no contexto da cidade, reflectindo a justaposição dos telhados nas colinas, ou mesmo replicando o ritmo da ondulação do estuário, dependendo da interpretação poética individual. O Terminal estende-se à nova Praça com uma intervenção de arte pública, projectando um padrão sobre o pavimento da Praça, como se tratasse de uma sombra artificial, ou simbólica”.

Imagens cedidas gentilmente pelos autores.

Texto publicado na edição nº 17 (Julho, Agosto, Setembro 2010) da revista Archinews